Metade das jovens brasileiras enfrenta tripla jornada
Pesquisa mostra que jovens brasileiras a partir dos 18 anos concilia estudo, trabalho e cuidado doméstico simultaneamente
Por Cristiano Stefanoni
A rotina de milhões de jovens brasileiras é marcada por uma sobreposição de responsabilidades que começa cedo e se intensifica na vida adulta. Um estudo divulgado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a Secretaria Nacional de Cuidados e Família, do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, revelou que, a partir dos 18 anos, metade das mulheres jovens já vive uma dupla ou até tripla jornada, conciliando estudos, trabalho remunerado e atividades domésticas e de cuidado.
Os dados fazem parte do levantamento “Juventudes e a Política de Cuidados”, elaborado com base nos microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua Anual) de 2022, do IBGE. O estudo destaca que a juventude representa uma fase de transição importante, quando as pessoas deixam de ser principalmente receptoras de cuidados para assumir responsabilidades com familiares, filhos, irmãos e outros dependentes.
Segundo o levantamento, 82,5% dos jovens brasileiros entre 15 e 29 anos realizam algum tipo de atividade de cuidado. Entre as mulheres, o percentual sobe para 90%, evidenciando uma distribuição desigual dessas tarefas dentro das famílias. Os números reforçam que o trabalho de cuidado continua sendo desempenhado majoritariamente por elas, mesmo quando estão estudando ou inseridas no mercado de trabalho.
Entre as adolescentes de 15 a 17 anos, a combinação mais frequente é a dos estudos com atividades domésticas e de cuidado. Nessa faixa etária, 78,4% conciliam essas duas responsabilidades, enquanto 8,1% já enfrentam uma tripla jornada, acumulando também trabalho remunerado.
Na faixa dos 18 aos 24 anos, período geralmente associado ao ingresso no ensino superior ou ao início da vida profissional, 28,7% das jovens conciliam estudos e cuidados, e 13,1% acumulam estudo, trabalho e responsabilidades domésticas. O cenário demonstra que a busca por qualificação profissional ocorre simultaneamente às demandas familiares.
A situação se torna ainda mais intensa entre as mulheres de 25 a 29 anos. Nessa etapa da vida, 57,4% acumulam trabalho remunerado e atividades de cuidado, enquanto 9,7% mantêm a tripla jornada. O percentual das que conseguem continuar estudando ao mesmo tempo em que cuidam de familiares cai para apenas 14%, indicando que muitas acabam interrompendo ou adiando a formação acadêmica diante das exigências cotidianas.
Outro dado que chama atenção é a desconstrução da ideia dos chamados jovens “nem-nem”, expressão usada para designar pessoas que não estudam nem trabalham. O estudo mostra que grande parte das mulheres enquadradas nessa categoria está, na realidade, realizando trabalho doméstico e de cuidado não remunerado. Apenas 2% das jovens brasileiras não estudam, não trabalham e também não desempenham atividades de cuidado.
Os resultados reforçam o debate sobre a valorização do trabalho de cuidado e a necessidade de políticas públicas que ampliem a oferta de creches, serviços de apoio às famílias e mecanismos que permitam uma divisão mais equilibrada das responsabilidades domésticas. Para os pesquisadores, reconhecer esse trabalho invisível é um passo importante para compreender os desafios enfrentados pelas jovens brasileiras e construir caminhos que promovam mais igualdade de oportunidades.
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