autismo e Copa do Mundo

Especialista alerta que estímulos sensoriais e mudanças na rotina podem impactar a experiência de torcedores com TEA durante a competição mundial de futebol
Por Patrícia Scott
O período da Copa do Mundo costuma alterar o ritmo das cidades e das famílias. Reuniões, comemorações, debates sobre os jogos e a expectativa por cada partida fazem parte da rotina de milhões de torcedores. Porém, para adultos autistas, participar desses ambientes pode envolver desafios que não aparecem para a maioria das pessoas.
Além da paixão pelo futebol, há fatores como sons elevados, grandes aglomerações, alterações de horários e excesso de estímulos visuais e auditivos. Para muitas pessoas neurodivergentes esse conjunto de estímulos pode provocar desconforto físico, ansiedade e dificuldade de regulação emocional.
O neurologista Matheus Trilico, especialista em Transtorno do Espectro Autista (TEA) e TDAH em adultos, explica que o modo de acompanhar o campeonato não segue um padrão único. “Cada pessoa encontra sua própria maneira de viver esse momento. Alguns autistas acompanham todos os jogos, analisam dados, estudam equipes e se envolvem profundamente”, afirma, acrescentando que, entretanto, outros preferem assistir de forma mais reservada ou em ambientes controlados. “O respeito às necessidades individuais é fundamental.”
Durante as partidas, elementos vistos como parte da festa — como fogos, gritos da torcida, buzinas, músicas e locais cheios — podem se transformar em uma sobrecarga para algumas pessoas autistas. Segundo Trilico, o cérebro autista pode interpretar estímulos sensoriais de maneira diferente.
“Quando há muitas informações acontecendo ao mesmo tempo, pode surgir uma sensação de esgotamento, ansiedade ou necessidade de se afastar do ambiente para reorganizar o equilíbrio emocional”, explica.
A situação pode ser ainda mais desafiadora para aqueles que apresentam características de autismo e TDAH simultaneamente, combinação conhecida por muitos integrantes da comunidade neurodivergente como AuTDAH. “O autismo costuma estar associado à busca por previsibilidade e organização, enquanto o TDAH pode envolver uma necessidade maior de novidade e estímulo. Em situações intensas, como jogos e comemorações, essa interação pode dificultar a adaptação a mudanças repentinas”, detalha o neurologista.
Diferentes maneiras de torcer
Embora haja uma expectativa social de participação coletiva nas celebrações — com torcedores vestidos com as cores da seleção e acompanhando os jogos em grupo — a experiência do futebol pode ocorrer de diferentes formas.
Segundo Matheus, para tornar o momento mais confortável, alguns autistas optam por assistir às partidas em casa. Outras preferem locais menos movimentados, combinam previamente os encontros, fazem pausas durante o jogo quando necessário ou buscam espaços para descanso em eventos mais longos.
O médico pontua que entre os recursos que podem auxiliar no controle dos estímulos, estão os fones de redução de ruído, que ajudam a minimizar a sobrecarga sensorial. “Estar presente não significa precisar suportar uma situação desconfortável. É possível criar uma experiência própria, respeitando os limites pessoais”, afirma Trilico.
Outro ponto levantado pelo especialista é o masking, ou camuflagem social, quando algumas pessoas autistas tentam esconder sinais de desconforto para se adequar às expectativas do ambiente. “Muitas vezes, alguém pode parecer estar aproveitando a situação, mas internamente está lidando com uma grande sobrecarga. Manter essa adaptação constante pode causar desgaste emocional”, destaca o médico.
Mais acolhimento nas celebrações
Para o neurologista, uma Copa mais inclusiva depende do entendimento de que não existe apenas um jeito correto de torcer. Algumas pessoas acompanharão cada detalhe das partidas, outras preferirão momentos mais tranquilos, enquanto algumas podem não demonstrar interesse pelo campeonato.
“O importante é garantir liberdade para que cada pessoa participe da forma que for mais confortável. A inclusão acontece quando diferentes maneiras de viver uma experiência são reconhecidas e respeitadas”, conclui Trilico.
No Brasil, cerca de 2,4 milhões de pessoas possuem diagnóstico de TEA, o equivalente a 1,2% da população, segundo o Censo Demográfico de 2022. Já a estimativa quanto ao Transtorno do Déficit de Atenção Hiperatividade (TDAH) gira em torno de aproximadamente 6 a 11 milhões de pessoas. Isso representa uma prevalência média de 5% a 8% na população. Os dados evidenciam que o tema não se restringe a um grupo específico de famílias, mas está presente na realidade de milhões de brasileiros.
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