Pais e filhos devem aprender a se perdoarem

Muitas famílias convivem com décadas de mágoas, palavras mal colocadas e feridas nunca curadas. Para o pastor Raimundo, não há solução instantânea para restaurar esses lares, mas há caminhos que podem ajudar
Por Patrícia Esteves
Entre pais e filhos, o tempo não costuma curar tudo sozinho, uma porta entreaberta, uma frase atravessada no jantar, um olhar que se desvia, pode demonstrar o início do afastamento dentro do lar, de forma quase imperceptível. O silêncio do tempo dado pode cimentar feridas, cristalizar silêncios e alimentar distâncias que só o perdão é capaz de atravessar.
E quando esse perdão não é praticado, por orgulho, por medo ou simplesmente por falta de modelo, as relações vão perdendo cor. Dentro de muitas casas cristãs, onde a graça é anunciada, o perdão ainda é um exercício pendente.
Mesmo em famílias guiadas pela fé, a prática do perdão mútuo permanece como um dos maiores desafios emocionais e espirituais. Segundo o pastor Raimundo Silva Junior, da Primeira Igreja Batista de Bom Jardim, em Fortaleza/CE, a dificuldade tem raízes profundas.
“Na essência, o ser humano não tem tendência para o hábito da prática do perdão. A partir do novo nascimento somos estimulados a aprender e aplicar os valores da vida cristã. Onde, entre eles, está a prática do perdão”, afirma. Para ele, quando os pais cristãos não vivem esse valor no cotidiano, os filhos crescem sem referência. “Logo, os filhos não aprendem”, explica.
A dificuldade de reconhecer erros em família
Uma das barreiras mais comuns está na cultura da autoridade inquestionável. Em muitos lares, ainda vigora a ideia de que os pais não erram, e, se erram, não pedem desculpas. “Faz parte do senso comum que pais não erram diante dos filhos. Parece que, se os pais admitirem errarem, tira deles a autoridade sobre os filhos. Em contrapartida, os filhos não admitem que os pais errem”, observa o pastor Raimundo. Ele aponta que esse comportamento se apoia numa herança religiosa rígida, que desumaniza o relacionamento e impede o acesso à misericórdia.
Essa ausência de reconhecimento fragiliza tanto a autoridade quanto o afeto. “É preciso que pais cristãos vivam com testemunho pelo sentimento de um amor pactual com Deus”, diz. Quando isso não acontece, os filhos crescem expostos a valores seculares e sem vivenciar o perdão em sua forma prática. O impacto é espiritual e emocional. “Espiritualmente, eles não sentirão a misericórdia de Deus perdoando, o que estimula o perdoar. E emocionalmente se tornam escravos da ira”, lamenta.
A dor que se acumula em silêncio
Não são poucas as famílias que carregam histórias de décadas marcadas por palavras mal ditas, feridas não tratadas e culpas que se arrastam. Para o pastor Raimundo, não existe fórmula imediata para restaurar esses lares, mas há caminhos. “Como pastor, posso afirmar que não é tão simples conduzirmos um processo de cura em famílias nessa situação”, declara pastor Júnior.
Segundo ele, é necessário que alguém, geralmente o mais sensibilizado, seja o primeiro a se abrir ao agir de Deus. “Pela minha experiência, pessoas feridas têm suas razões para não perdoarem e até para ferirem outras pessoas da mesma família. O que acaba virando um ciclo e excluindo a figura do Deus perdoador”, conta.
Esse ciclo só começa a se romper quando uma das partes aceita iniciar o processo de cura pessoal, com acompanhamento pastoral e espiritual. “Depois, esse membro, auxiliado por alguém espiritualmente maduro, conduzirá esse processo de cura nos demais familiares, por meio de conversas e escutas, mas sempre por meio da oração”.
O perdão como semente de restauração
Na Bíblia, o perdão nunca aparece como sinal de fraqueza, mas como força capaz de recomeçar lares e alianças. O texto de Efésios 6.1–4, citado pelo pastor, mostra como a obediência, o cuidado e a instrução caminham juntos na vida familiar. “O efeito do perdão é sempre restauração. Desde restaurar um relacionamento humano como o relacionamento com Deus”, afirma o pastor.
Ele acredita que pais que temem a Deus e conduzem seus filhos sob os princípios da Palavra cultivam um terreno onde o perdão pode brotar naturalmente. “Esses filhos aprenderão a amar a Deus e honrar sua família”, celebra.
Nas relações familiares, não é a perfeição que educa, é a humildade. Pedir perdão ensina responsabilidade e humanidade. Oferecer perdão ensina misericórdia. E quando a graça entra pela porta da frente, o lar deixa de ser palco de orgulho e se transforma em território de recomeços.
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