o papel do padrasto na família

Convivência com enteados envolve questões emocionais e exige equilíbrio entre amor, respeito e construção de autoridade
Por Patrícia Esteves
Assumir o papel de padrasto em uma família já estruturada é mais do que uma posição social: é uma missão sensível, marcada por limites emocionais, históricos e espirituais. Para o pastor Jucélio de Souza, do ministério Família Casa Real, não há respostas simples nem conselhos prontos para essa realidade. Cada história exige escuta, discernimento e sabedoria.
“Não se dá respostas de micro-ondas para questões que são de alta periculosidade, por assim dizer”, afirma. Em uma fala densa e sincera, ele lança luz sobre os desafios vividos por homens que se colocam diante dos filhos de suas companheiras com o desejo de cuidar, mas nem sempre com permissão emocional ou legitimidade afetiva para isso.
Para o pastor, toda orientação sobre o papel de padrasto precisa começar com perguntas, não com respostas. “Primeiro é saber por quanto tempo este homem está padrasto. Segundo, teria que saber que idade têm os enteados. Terceiro, que relação esses enteados têm com seu pai biológico que está fora de casa ou com a sua mãe biológica que está fora de casa, ou se ela não existe mais”, explica.
Essas variáveis moldam a experiência de convivência. Um homem que chega a uma casa onde há uma adolescente, por exemplo, invade um espaço afetivo e físico que antes era íntimo e protegido. “É uma invasão da vida social da casa”, alerta. “Uma menina que vive só com a mãe… de repente, do nada, você pega um homem e coloca dentro de casa. Esse homem que está afeiçoado à sua mãe, mas é um estranho para essa menina”, reflete.
Esse tipo de alerta ajuda a combater idealizações perigosas e reforça que a convivência saudável entre padrasto e enteados precisa ser construída com tempo, confiança e limites claros.
Quando o tempo modifica a história
Por outro lado, há casos em que o padrasto está presente desde a infância. “Às vezes o homem já está na casa há 15 anos, 20 anos, chegou quando as crianças tinham 3, 4 anos… já tem uma outra história. E é uma orientação totalmente diferente”. Nesse cenário, o afeto se consolidou ao longo do tempo e a função paterna foi se estabelecendo de maneira natural, mesmo sem vínculo biológico.
A complexidade aumenta quando se considera a presença ou ausência do pai biológico. “Se esse pai biológico exerce uma paternidade que dá um senso de proteção, que dá um senso de prazer relacional para os filhos, a postura desse padrasto é uma. Agora, se tem um pai off na história, a postura desse padrasto é outra”, explica Jucélio.
O dilema da autoridade
Muitas vezes, a mãe deseja que o padrasto seja um pai em termos de carinho, mas não em termos de autoridade. “Ela quer que este homem ame os seus filhos como um pai, mas não pode corrigi-los como um pai”, observa. Essa postura ambígua pode gerar ressentimentos.
“Esse homem se vê agora em segundo plano. Se vê que ali é ela e as crianças primeiro. Ele está em segundo lugar. Então muitas vezes ele reage, passa até a ter um desconforto inconsciente com esses próprios enteados, como se estivesse atrapalhando a relação dele com ela”, exemplifica com mais uma observação.
Esse tipo de tensão revela uma dinâmica comum de mães que carregam uma culpa silenciosa por não oferecerem aos filhos a figura do pai. “Mesmo que não foi uma escolha dela, mas ela se vê culpada, muitas vezes, por ver os filhos numa situação ou outra, em que precisaria da figura paterna e ele não está ali”, destaca.
Um chamado à adoção espiritual
Diante desses desafios, o pastor Jucélio aponta um caminho que não é técnico, mas espiritual. “Este homem vai ter que pedir para Deus um coração de um pai adotivo. Isso vai ter que entrar mesmo no coração dele. Para que, a hora que entrar o espírito da adoção, isso ajude a provocar nos seus enteados um sentimento de filiação”, afirma.
Segundo ele, esse é um milagre possível. “Aconteceu conosco. Nós recebemos o espírito da filiação. Nós vivenciamos esse milagre da adoção”, diz o pastor sobre quando fomos todos adotados como filhos de Deus que nos adotou como um pai verdadeiro. O papel do padrasto, nesse sentido, exige humildade, amor constante e a disposição para construir laços que não são automáticos, mas que podem se tornar verdadeiros.
“É uma relação delicada”, repete o pastor. E justamente por isso, precisa ser tratada com respeito. Ao reconhecer as complexidades envolvidas, do tempo de convivência à história afetiva dos filhos e ao lugar que o pai biológico ocupa ou deixou vago, o homem que assume a posição de padrasto é chamado a se revestir de sensibilidade, paciência e oração. Não há roteiro. Mas há fé, escuta e disposição para viver, na prática, o amor que acolhe e espera, sem usurpar.
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