nada de comentar sobre namoro e corpo – Comunhão

Nas festas, se você quer se aproximar dos adolescentes da família, vale menos pensar no que perguntar e mais no que costuma dizer sem perceber o quanto constrange
Por Patrícia Esteves
“E aí, como estão os namoradinhos?” “É… Você engordou igual sua mãe na adolescência.” “Já está fazendo tratamento para essas espinhas?” Um festival de comentários atravessados que, em nome da brincadeira ou da intimidade familiar, expõe adolescentes a constrangimentos públicos que não têm nada de inocentes. Em datas como o Natal, quando a convivência se intensifica, muitos adultos parecem esquecer que curiosidade não é cuidado e que intimidade não autoriza invasão. O resultado é um ambiente onde o jovem aprende rápido a se fechar, se calar ou simplesmente evitar estar presente.
Esses comentários invasivos e limites atravessados causam desconforto e a discussão sobre convivência saudável com adolescentes precisa mudar de eixo. Mais do que vigiar assuntos ou evitar temas delicados, o desafio passa pela qualidade da presença adulta e pela responsabilidade de quem conduz o ambiente familiar.
Para a pedagoga e educadora Cris Poli, o maior impasse da educação contemporânea não está no excesso de assuntos difíceis, mas na ausência concreta dos pais no cotidiano dos filhos e, por consequência, o desconhecimento sobre a vida deles. “O grande desafio dos pais é conseguir estar com os filhos. A ausência deles é um erro tremendo. Traz um buraco emocional enorme”, diz Cris Poli. Quando esse vínculo é frágil, o adolescente fica ainda mais exposto a constrangimentos externos, sem a mediação protetora dos adultos responsáveis.
Segundo a educadora, essa ausência não se resume à falta de tempo, mas a um cansaço que empurra os adultos para fora da vida real dos filhos. “Hoje os pais dispõem de pouco tempo para ficar com os filhos (…) Esse pouco tempo, estão cansados e estressados. Então isso faz com que eles tenham esse cansaço de entrar na vida dos filhos”, reflete.
Durante as festas, essa distância se traduz em omissão. Comentários inadequados, brincadeiras constrangedoras e perguntas invasivas partem, muitas vezes, de adultos que não se percebem atravessando limites. A convivência deixa de ser acolhedora e se torna um território de exposição. Para Cris Poli, a responsabilidade não está em vigiar diálogos, mas em sustentar o ambiente. Quando o pai ou responsável entende que é dele a responsabilidade pelo que o filho recebe de dentro e de fora, precisa estar disposto a abrir mão do próprio cansaço para ocupar esse lugar de proteção.
Cris Poli também associa a dificuldade de conduzir a vida dos filhos à incapacidade dos próprios adultos de estabelecer limites pessoais. “A grande dificuldade é que o pai não sabe, muitas vezes, lidar com isso na vida dele. É tudo tão maravilhoso e atraente que não tem limites para a vida dele. Aí não sabe o que fazer com o filho. Eles não sabem administrar a própria vida”, diz.
Mais do que evitar temas sensíveis, o desafio é rever posturas adultas que ferem, expõem e silenciam os adolescentes. Presença, clareza e responsabilidade relacional são o que tornam a convivência possível, e não o silêncio imposto nem a vigilância excessiva.
Como se aproximar e conduzir conversas com adolescentes
Comece pela escuta, não pela curiosidade
Perguntar menos e ouvir mais ajuda o adolescente a se sentir respeitado, não investigado.
Evite comentários sobre corpo, aparência ou comparações
Mesmo quando travestidos de brincadeira, esses comentários costumam constranger e fechar o diálogo.
Fale a partir de si, não sobre eles
Compartilhar experiências próprias abre espaço para conversa sem colocar o jovem na defensiva.
Respeite o silêncio como forma de comunicação
Nem todo adolescente quer conversar o tempo todo. Permanecer disponível já é uma forma de presença.
Intervenha quando outros adultos ultrapassarem limites
Proteger o adolescente diante de comentários invasivos comunica cuidado e segurança.
Valorize interesses reais, mesmo que não sejam os seus
Demonstrar interesse genuíno pelo que importa para ele fortalece o vínculo.
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