Dores emocionais podem virar tragédia dentro de casa – Comunhão

Especialistas analisam como dores emocionais podem transformar frustração e rejeição em violência extrema até contra os próprios filhos
Por Patrícia Esteves
Um crime chocou Itumbiara, no sul de Goiás, e todo o Brasil. Na noite da última quarta-feira, dia 11, Thales Naves Alves Machado, de 40 anos, secretário de Governo da Prefeitura de Itumbiara (GO), e genro do prefeito Dione Araújo, foi apontado pela Polícia Civil como autor de um homicídio consumado e tentado ao atirar contra os próprios filhos – Miguel de 12 e Benício de 8 anos – dentro da residência da família e, em seguida, tirar a própria vida. As duas crianças chegaram a ser socorridas, mas o mais velho não resistiu aos ferimentos e o caçula faleceu após passar por cirurgia.
Antes do episódio, Thales publicou em suas redes sociais mensagens e uma carta em que relatava estar emocionalmente abalado por problemas conjugais e mencionava uma suposta traição da esposa Sara Tinoco Araújo como motivação. O caso foi oficialmente registrado como homicídio consumado seguido de autoextermínio, e autoridades seguem investigando as circunstâncias e motivações do ato que mobilizou notas de pesar e comoção.
Essa história voltou a colocar em evidência um dos cenários mais difíceis de compreender: a violência que nasce dentro da própria família. O caso ganhou repercussão nacional não apenas pela brutalidade, mas pelo contexto, principalmente por horas antes, o homem haver declarado amor aos filhos.
A ferida narcísica e a agressão deslocada
Para o teólogo e terapeuta cristão Rapha Tarso, a chave de leitura não está apenas na traição conjugal, mas em um colapso interno mais profundo. “Quando o homem descobre a traição, o que ele sentiu ali na verdade não foi só a dor da traição. Foi o que a psicologia chama de ferida narcísica. Ou seja, é quando a pessoa sente que a própria identidade dela foi destruída”, explicou em suas redes sociais.
Segundo ele, nesse estado emocional, os filhos deixam de ser percebidos como indivíduos e passam a ser vistos como extensão da esposa. “Os filhos eram a extensão da própria mãe. A extensão da própria esposa. A extensão da traidora. Era o único lugar onde ele ainda poderia causar algum tipo de dor máxima nela”, diz. Rapha define esse movimento como “agressão deslocada”. “Ele queria destruir a esposa, mas ele usou os filhos como instrumento de punição definitiva”, destaca.
Para o terapeuta, a tragédia não nasce no momento do gatilho, mas em uma história de vida marcada por ausência de elaboração emocional. “A traição só foi o gatilho. Mas a bomba já estava totalmente armada”. E resume com uma imagem forte. “Ferida não tratada vira veneno. E veneno que não é extraído mata. E às vezes mata literalmente. Não só a pessoa que está envenenada, mas aqueles que estão ao redor”, afirma.
Ego ferido, rejeição e incapacidade de elaborar a dor
A psicanalista clínica Ângela Sirino segue na mesma linha ao afirmar que não se trata apenas de um episódio de infidelidade, mas de uma estrutura emocional frágil diante da rejeição. “Quando alguém não suporta perder o controle, não suporta perder a imagem, não suporta ser trocado, o ego entra em colapso. E um ego ferido pode se tornar destrutivo”, diz.
Para ela, o que se revela é a incapacidade de elaborar frustrações. “A dor conjugal foi transformada em violência contra os próprios filhos (…) Nem toda pessoa traída mata. Então, não é a traição em si, é o próprio psicológico dessa pessoa”, Ângela reforça que a traição, por si só, não explica o desfecho.
Em casos assim, a identidade passa a depender de controle e posse, e qualquer ruptura é sentida como aniquilação. “Quem não consegue amadurecer com a dor, infelizmente, ele tem a tendência de escolher se destruir de uma vez por todas, ao invés de suportar a dor e a vergonha que há de vir”, detalha.
Na leitura espiritual, Ângela acrescenta que toda ação que rompe princípios éticos gera consequências irreversíveis. “A pergunta não é o que ela fez, a pergunta é o que ele não suportou”, conclui. Já Rapha Tarso sintetiza que cuidar da saúde mental e da vida interior não é apenas uma busca por bem-estar individual. “É sobre você também impedir tragédias que podem acontecer na vida do próximo e na sua vida também”, finaliza o teólogo.
O caso de Itumbiara expõe, de forma bastante dolorosa, que conflitos conjugais não elaborados, somados a estruturas emocionais frágeis e ausência de cuidado interno, podem gerar efeitos devastadores. Mais do que discutir o fato em si, a tragédia deixa um alerta incômodo, de que quando a dor não encontra espaço para ser tratada, ela pode se transformar em destruição.
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