Avós no Papel de Pais: Desafios e Impactos

A psicóloga Deborah Dubner analisa a influência da convivência intergeracional e alerta para riscos de inversão de papéis na família
Por Patrícia Scott
Com o aumento de famílias em que avós assumem a criação dos netos, segundo pesquisas, cresce também a necessidade de compreender os impactos dessa dinâmica no desenvolvimento infantojuvenil e na organização familiar. Entre afeto, responsabilidade e possíveis conflitos de papéis, especialistas alertam para a importância de estabelecer limites claros e garantir a presença emocional das figuras parentais sempre que possível. Em entrevista à Comunhãoa psicóloga Deborah Dubner detalha os principais desafios enfrentados por esses cuidadores e os efeitos dessa convivência na vida de crianças e adolescentes. Confira:
Quais são os principais desafios enfrentados pelos avós no dia a dia?
É compreender o seu lugar. Avós não são os pais e, quando os pais estão presentes, não devem ocupar o papel central na educação, mas sim atuar como apoio. É um lugar de bastidores, não de protagonismo — embora a relação com os netos seja profundamente especial. Os avós têm a vantagem da maturidade e sabem que o tempo passa rápido. Por isso, tendem a valorizar mais a qualidade da presença. Crianças saudáveis são educadas principalmente pelos pais ou responsáveis diretos. Eles podem colocar limites, sinalizar desvios e contribuir com orientações, sempre com delicadeza e respeito pela dinâmica familiar.
Há impactos positivos nessa convivência intergeracional? Quais valores ou aprendizados se destacam?
Os impactos tendem a ser muito positivos. Avós carregam histórias, experiências e saberes que enriquecem o desenvolvimento das crianças. Seja ao contar uma história, cozinhar juntos, cantar, dançar ou compartilhar uma atividade, eles constroem memórias afetivas profundas.
O “sabor” da casa dos avós muitas vezes permanece na memória do corpo, associado ao aconchego. Ao mesmo tempo, os netos também ensinam os avós. Cada criança traz características e potencialidades próprias. Aprender a reconhecer essas singularidades e apoiar seu desenvolvimento é um aprendizado valioso nessa relação.
Os avós, de fato, conseguem suprir a ausência ou o distanciamento dos pais na vida dos netos? Por quê?
Ninguém substitui pai e mãe. No entanto, os avós podem ter uma presença profundamente significativa. Em geral, são mais pacientes, atentos e disponíveis do que foram em outras fases da vida. Uma criança que recebe atenção, validação e afeto tende a experimentar emoções positivas com mais frequência — como alegria, esperança e amor. Essas experiências contribuem para o desenvolvimento da autoestima, da criatividade e das habilidades socioemocionais. Portanto, mesmo diante da ausência dos pais, a presença consistente e afetiva dos avós pode oferecer bases importantes para que a criança desenvolva recursos internos para lidar com a vida.
Existem riscos ou desafios quando os avós assumem funções parentais? Quais são eles?
Quando os pais estão presentes, existe o risco de a criança ficar confusa em relação à autoridade. É importante que ela reconheça claramente quais são os valores e referências da sua casa. Na casa dos avós pode haver diferenças, mas os pais devem ser a principal referência de limites e direcionamento. Quando os avós assumem o cuidado por necessidade — diante da ausência dos pais — trata-se de uma realidade que exige adaptação. Nesse contexto, a presença dos avós, quando estruturada com afeto e consistência, pode ser uma importante fonte de segurança emocional.
Quais são os impactos emocionais para aqueles que são educados pelos avós?
As crianças educadas pelos avós recebem um tipo de amor diferente daquele vindo dos pais. Em geral, os avós são mais tolerantes e flexíveis do que foram em sua própria experiência como pais. Algo se transforma na passagem geracional — e isso é frequentemente percebido pelos filhos adultos. Nada substitui a presença das figuras parentais, que são fundamentais para o desenvolvimento infantil. No entanto, quando os avós assumem esse papel, podem surgir desafios importantes, mas também ganhos significativos. A relação entre avós e netos costuma ser marcada por ternura, disponibilidade e afeto.
Há diferenças emocionais e sociais entre crianças cuidadas por avós e aquelas educadas, exclusivamente pelos pais?
Essa não é uma resposta simples ou generalizável. Existem contextos em que os pais, por diferentes razões, não conseguem oferecer um ambiente emocionalmente saudável. Nesses casos, a presença de avós mais equilibrados e afetivos pode ser altamente benéfica. Por outro lado, quando os pais estão presentes, disponíveis e comprometidos, essa tende a ser a configuração mais favorável ao desenvolvimento infantil. Independentemente de quem exerce o cuidado, o mais importante é que a criança cresça em um ambiente emocional seguro, com vínculos consistentes, afeto e referências acolhedoras — condições essenciais para que desenvolva seu potencial.
De que forma a ausência ou distância dos pais afeta o desenvolvimento emocional das crianças e adolescentes?
Vivemos um tempo desafiador, marcado por sobrecarga e excesso de estímulos. Muitas vezes, pais e mães estão presentes fisicamente, mas emocionalmente indisponíveis.
A criança percebe — e sente profundamente. Um dos grandes desafios atuais é oferecer presença com qualidade. Não basta estar junto; é preciso estar disponível. A ausência ou distância emocional dos pais pode gerar lacunas importantes no desenvolvimento, que tendem a aparecer com mais intensidade na adolescência. Crianças precisam de figuras de referência que acolham, ofereçam segurança e estabeleçam limites. Sem isso, podem desenvolver sentimentos de vazio ou desconexão. A educação dos filhos não pode ser terceirizada, mas compartilhada, e não delegada.
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