o samba gospel rompe preconceitos e reafirma identidade cristã – Comunhão
No Dia Nacional do Samba, comemorado nesta terça-feira, dia 2 de dezembro, artistas e líderes cristãos destacam como o ritmo tem rompido barreiras
Por Karina Garcia
O Dia Nacional do Samba, comemorado nesta segunde novembro, abre espaço para uma reflexão necessária dentro do cenário gospel: qual é, afinal, o lugar do samba na adoração cristã? Apesar de profundamente brasileiro, o ritmo ainda enfrenta resistência em algumas igrejas, onde é associado à secularidade ou entendido como musicalidade “inadequada” para o louvor. No entanto, grupos e artistas que se dedicam ao samba gospel mostram que essa barreira tem sido aos poucos desmontada e que o evangelho pode, sim, pulsar no compasso da percussão.
Entre os representantes desse movimento estão o Chega Mais Pra Cristo, conhecido por unir samba tradicional a letras de fé; o cantor Daniel Renovado, que transformou sua história de vida e ministério através do samba cristão; o coletivo Sambistas de Cristo, que evangeliza em rodas de samba nas praças; e artistas como Waguinho, que traz para o gospel suas raízes no pagode e no samba romântico. Todos, cada um à sua maneira, reafirmam que o louvor pode dialogar com a cultura brasileira sem perder profundidade espiritual.
A rejeição histórica ao samba dentro da igreja se contrapõe diretamente ao próprio relato bíblico. Diversos trechos das Escrituras mostram o povo de Deus celebrando com dança, tambores e instrumentos que remetem ao ambiente festivo. Em Êxodo 15, após a travessia do Mar Vermelho, Miriam tomou o tamboril nas mãos e conduziu as mulheres em danças para louvar ao Senhor, num ato de alegria coletiva, algo distante da ideia de que o louvor deve ser estritamente contido ou melancólico. A Bíblia também menciona festins, celebrações e ritmos vibrantes como expressões legítimas de gratidão.
É justamente essa herança de festa, percussão e movimento que leva muitos estudiosos a compreenderem que ritmos como o samba não contradizem a fé cristã; pelo contrário, dialogam com a tradição bíblica de celebração. Assim como Miriam, Davi e o povo hebreu expressavam adoração através da dança e dos instrumentos, o samba gospel resgata essa dimensão de alegria espiritual conectada ao corpo, à cultura e à coletividade.
Apesar disso, artistas do samba gospel relatam que ainda encontram barreiras dentro do meio evangélico. O Chega Mais Pra Cristo, por exemplo, já enfrentou críticas por usar um estilo visto como “do mundo”.
Para aprofundar essa discussão, ouvimos o pastor Atilano Muradas, que há décadas pesquisa a música no contexto da igreja brasileira e analisa por que esse preconceito persiste.
Compositor, cantor e estudioso do tema, ele também é um dos nomes atuantes no cenário do samba gospel e faz parte de dois grupos e dialoga tanto com artistas quanto com comunidades que já adotam o ritmo como expressão de fé.
Segundo ele, a resistência ao samba não é teológica, mas cultural. “Todos os ritmos sofrem algum tipo de preconceito, porque nenhum estilo agrada a todo mundo. O samba só virou ‘vilão’ porque, historicamente, as igrejas brasileiras foram ensinadas a cantar ritmos estrangeiros e a descartar de saída tudo que soasse brasileiro”, explica.
Para Muradas, não há qualquer base bíblica que impeça o uso do samba ou de outros ritmos nacionais no louvor. “Só encontra respaldo para rejeitar o samba quem força o texto bíblico para justificar o próprio preconceito. Nada na Bíblia condena um ritmo específico”, afirma.
Ele também ressalta que grande parte da rejeição nasce do desconhecimento. “Muitos imaginam que samba é só o que se canta no Carnaval, mas existem dezenas de variações (lentas, médias e rápidas) plenamente adequadas para diferentes momentos do culto.”
Outra barreira, diz o pastor, vem da ideia equivocada de que o samba seria “difícil” de tocar: “Isso não é verdade. Músicos populares tocam samba sem formação formal; o que falta na igreja é costume e interesse.”
Ao observar o crescimento do samba gospel especialmente em comunidades terapêuticas, prisões e igrejas de periferia, Atilano vê no ritmo uma expressão já enraizada na fé de muitos cristãos. “A música na igreja não existe apenas para adoração, ela ensina, acolhe, testemunha. E nessas comunidades, tudo vira samba: hinos, cânticos, worship. É natural para eles. Quem tem preconceito com o samba, geralmente, é quem nunca cantou ou tocou samba.”
Para ele, o uso do samba pode inclusive reforçar a coerência evangelística da igreja. “Se a igreja canta samba no evangelismo, precisa cantar também no culto. Não dá para atrair alguém com uma musicalidade contextualizada e, depois, abandoná-la por completo. Isso desrespeita a cultura da própria comunidade”, argumenta. Muradas aponta ainda para o contraste entre a realidade brasileira e a adoção quase exclusiva de ritmos norte-americanos nos cultos.
“Os adultos que se convertem no Brasil ouviam samba, forró, sertanejo. Mas quando chegam à igreja, precisam cantar como se fossem americanos. Isso é uma perda cultural e espiritual desnecessária.”
Questionado se percebe mudanças, o pastor reconhece avanços, mas alerta para um distanciamento crescente: “O preconceito diminuiu muito nos últimos 20 anos, mas os músicos cristãos hoje desconhecem os ritmos brasileiros porque foram formados quase totalmente pela estética norte-americana. A maioria nem sabe tocar samba. É mais desinteresse do que rejeição consciente.”
Ainda assim, ele acredita no potencial evangelístico e congregacional do estilo. “O samba comunica, alcança, aproxima. Nos cultos, ele funciona nos momentos de testemunho, ensino e, claro, no louvor. As pessoas adoram naturalmente, como adorariam cantando qualquer outro gênero.”
Um testemunho de Vila Velha (ES)
Em Vila Velha, no Espírito Santo, o pastor Thompson Matheus lidera um movimento que traduz, na prática, o impacto transformador do samba gospel. Integrante da célula nacional “Tem Lugar na Mesa”, um espaço de acolhimento para músicos afastados da igreja e simpatizantes do estilo. Thompson coordena ações voltadas especialmente para casas de recuperação da região, que são numerosas no município.
Segundo o pastor Thompson, a força desse trabalho nasce da identificação. “A maioria dos nossos integrantes já enfrentou a dependência química, por isso decidimos levar ajuda a quem precisa através do louvor, da Palavra e dos nossos testemunhos”, afirma. O samba gospel, nesse contexto, torna-se ponte ao abrir portas, criar familiaridade e devolver esperança a pessoas que carregam histórias semelhantes às dos próprios voluntários.
Para Thompson, essa vivência revela uma verdade simples e profunda de que quando a música encontra o coração do povo, ela se torna instrumento de cura e, o samba, tão brasileiro quanto a fé de quem o abraça, tem sido um dos ritmos mais eficazes nesse caminho.
A reflexão proposta nesta data é clara: se o samba é parte profunda da identidade do povo brasileiro, por que não seria também parte da adoração desse mesmo povo? Para artistas e líderes que abraçam o ritmo, o samba gospel não é concessão cultural, mas um retorno às raízes festivas e celebrativas do louvor bíblico.
Ouça os clássicos do grupo Chega Mais Pra Cristo:
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