Mulheres na música cristã

Da igreja ao mercado, atuação feminina molda produção e formação musical
Por Karina Garcia
O crescimento da música gospel no Brasil não se explica apenas por vozes conhecidas ou grandes eventos. Por trás dos lançamentos, turnês e produções digitais, há uma estrutura profissional cada vez mais organizada. Nesse cenário, mulheres têm ocupado funções decisivas na produção, gestão de carreira, direção artística e organização institucional.
A principal notícia é que a presença feminina não é recente nem secundária. Mulheres ajudaram a estruturar a música evangélica desde dentro das igrejas e hoje também ocupam espaços importantes na engrenagem que sustenta o mercado gospel.
Presença histórica nas igrejas
Muito antes da profissionalização do setor, elas já estavam à frente do acompanhamento musical nos cultos, nos ensaios e na formação de corais. Uma das vozes que ajudam a entender essa realidade é a professora e regente Dorotéa Machado Kerr, que começou a atuar como organista aos 15 anos, em 1961, na Igreja Presbiteriana Unida de São Paulo.
“O papel das mulheres é extremamente importante na atividade musical nas igrejas evangélicas do Brasil. Essa atividade vinha a calhar com a formação que muitas moças recebiam ao lado dos estudos escolares. Recebiam uma boa educação musical aprendendo piano com professores particulares e nos conservatórios. Essa aprendizagem fazia parte da educação das meninas. Aconteceu comigo”, afirma.
Ela contesta a ideia de que a participação feminina ficava escondida. “Não acho que o papel da mulher na música de igrejas evangélicas fosse nos bastidores. Era uma atividade perfeitamente visível e apreciada nas igrejas, fosse no harmônio ou nos primeiros órgãos eletrônicos.”
O trabalho da organista sempre foi essencial para o culto protestante. O instrumento sustenta o canto congregacional, que é a base da prática musical cristã. “Sem o acompanhamento do órgão ou piano, e mais tarde dos teclados eletrônicos, o cântico dos hinos não teria acontecido”, explica.
Questionada sobre o que o público não vê, Dorotéa resume. “Muito ensaio por parte dos envolvidos nessa atividade.”
Formação e espaço profissional
Com o passar dos anos, o acesso das mulheres à formação acadêmica abriu novas portas. A própria professora seguiu carreira universitária e na pesquisa em música sacra. Para ela, o que ocorreu nas igrejas acompanhou mudanças maiores na sociedade.
“A atividade musical das igrejas evangélicas acabou por ser um reduto especial para as mulheres que foram ganhando espaço com muito estudo e trabalho. É um reflexo daquilo que acontece na sociedade, abertura e possibilidade de estudo e de prática.”
Tradição e renovação
Ao mesmo tempo em que o mercado gospel cresceu, a preservação do repertório histórico passou a exigir atenção. Para a professora, manter a base é indispensável para qualquer inovação.
“Guardar, preservar, trabalhar sobre o que aprendemos no passado é fundamental em qualquer atividade humana. Assim a música é perpetuada pelas gerações, influenciando novos praticantes e fornecendo base para novas criações musicais. O novo não nasceu no vazio, precisa de uma base.”
Ela reforça que tradição e novidade caminham juntas. “Faz parte da história humana a convivência do velho com o novo que parece querer sempre dominar. Mas não é assim que a música acontece. Precisa sempre do passado mesmo que se tenha a impressão de que é puramente nova.”
No cenário atual, com a música cristã ocupando espaço relevante na indústria cultural brasileira, a formação técnica ganha ainda mais peso. A expansão trouxe visibilidade e também mais exigência. Para Dorotéa, o caminho continua claro. “Acho que tem que se fundamentar no conhecimento, no estudo constante.”
Ao orientar jovens que desejam atuar na área, ela é direta. “Meu conselho é estudar muito. Esse é o caminho para a incorporação, exclusão e criação em todas as áreas de estudo.”
Crescimento do mercado gospel
Dados da Pró-Música Brasil mostram que o repertório religioso aparece com frequência entre os mais consumidos nas plataformas digitais. O avanço do streaming ampliou o alcance de artistas cristãos e fortaleceu o circuito de shows e congressos pelo país.
Com o crescimento, aumentou também a necessidade de organização. Produção musical, planejamento, gestão de imagem, assessoria de imprensa, coordenação de projetos e captação de recursos se tornaram funções essenciais. Nesses espaços, a presença feminina também tem avançado.
Apesar de ainda haver maioria masculina em cargos de direção nas grandes gravadoras, cresce o número de mulheres atuando como produtoras independentes, empresárias e diretoras de projetos. Muitas começaram organizando corais e ministérios de louvor nas igrejas e depois passaram a atuar no mercado.
Especialistas do setor apontam que ainda há desafios, como maior cobrança sobre mulheres em posições de liderança. Por outro lado, a formação acadêmica e a experiência acumulada ao longo de décadas têm fortalecido essa presença em funções estratégicas.
Se hoje a música gospel movimenta grandes públicos e produções de alto nível, parte dessa estrutura foi construída por mulheres que se dedicaram ao estudo, à prática e à organização da música nas igrejas. Nos bastidores e também à frente de projetos, elas seguem como parte essencial do som da fé no Brasil.
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