Sondae e a música cristã autêntica e profunda
Artista português une fé, profundidade e som independente
Não há pressa na música de Sondae. Nascido em Portugal e radicado no Reino Unido, o artista tem conquistado um público crescente ao resistir ao show, preferindo canções que permanecem na memória ao invés de simplesmente correr atrás de tendências. Trabalhando nas fronteiras do indie, hip-hop e louvor, seu álbum mais recente, GAROTOrepresenta um ponto de virada — não uma reinvenção, mas uma revelação.
Esse instinto pela paciência começou cedo. Antes dos estúdios ou lançamentos, Sondae passava longas horas na igreja enquanto sua mãe ensaiava o coral, absorvendo harmonia e emoção antes mesmo de saber que aquilo poderia se transformar em música.
“Começou bem cedo, quando eu tinha uns sete anos”, diz ele. “Eu morava em Portugal, nasci em Portugal. Então, quando estava crescendo, cantava na igreja. Minha mãe ensaiava o coral e, sempre que ela ia para os ensaios, eu ficava com ela, sentado, meio entediado. Aos poucos, fui me inclinando mais para a música.”
Formação e processo independente
A música não surgiu como um chamado ou um plano, mas pela proximidade. Na adolescência, essa exposição silenciosa tornou-se prática quando um amigo começou a aprender produção musical. Sondae observava, perguntava e manteve a curiosidade até aprender a própria técnica.
“Conheci um amigo que estava começando a aprender produção”, relembra. “Eu falei: ‘Cara, me ensina como você faz tudo isso.’ Ele me explicou tudo e, a partir daí, comecei a aprimorar minhas habilidades. Quando tinha 18 anos, já conseguia fazer músicas completas.”
Essa autonomia ainda define seu processo. Sondae escreve, produz e molda sua música do início ao fim, um controle que lhe permite buscar sentimento em vez de formato. Sua formação ajuda nisso. Criado em Portugal, rodeado por música brasileira, angolana e cabo-verdiana, ele cresceu imerso em tradições que valorizam mais a emoção do que o acabamento perfeito.
“Todas essas músicas, da forma como são escritas, enfatizam tanto a emoção que, se você prestar atenção, acaba sentindo o que elas dizem e tocam”, explica. “Crescer numa cultura que prioriza o sentimento da música mais do que só o som me permitiu traduzir isso para o meu próprio estilo.”
Identidade musical e fé como base
Esse “estilo próprio” resiste a classificações fáceis. Sondae entende os ouvintes que se sentem entre gêneros porque ele mesmo vive essa experiência.
“Posso me relacionar com pessoas que ficam na borda de tudo”, diz. “Tem gente que está na borda do hip-hop, mas não quer ser hip-hop 100%. Tem quem esteja na borda do indie, mas não quer ser indie de verdade.”
No centro de tudo está a fé — não como marca, mas como orientação.
“O centro de tudo que faço é Jesus”, afirma. “O centro de tudo que faço é a Bíblia.”
Ao invés de se isolar do mundo, Sondae o estuda. Sua escrita começa com atenção aos detalhes, observando pequenos momentos e deixando-os se desenrolar.
“Eu adoro observar”, conta. “Posso estar na rua e ver alguém fumando um cigarro e fico só olhando. Aí essa pessoa começa a chorar, pega o telefone e ouço: ‘Ela está bem?’ Tem beleza nisso, tem vida.”
Essa postura é guiada tanto pelas Escrituras quanto pelo som.
“Tenho no coração aquele versículo que diz: ‘Eu me fiz tudo para todos, para por todos os meios salvar alguns’”, explica. “É daí que tiro minha inspiração. Apenas estar.”
Fé e maturidade na trajetória pessoal
A história de fé de Sondae reflete essa persistência silenciosa. Ele não a descreve como uma série de grandes momentos espirituais, mas como uma longa obediência marcada por falhas e retornos.
“Meu caminhar com o Senhor não foi um grande momento seguido de nunca mais sentir nada”, diz. “Foi um grande sim seguido de mil pequenos sim.”
Como muitos artistas, seu período na universidade testou essa determinação.
“Eu tropecei algumas vezes quando entrei na faculdade, como de costume”, ela admite. “Mas eu nunca realmente deixei o Senhor.”
Esses altos e baixos alimentam sua música, mesmo que nem todas as canções sejam lançadas. Sondae é tão seletivo que chega a ser rigoroso.
“Lançarei quando estiver boa, quando eu achar que está boa”, explica. “E por boa não quero dizer só do ponto de vista sonoro. Quando há algo na música que vai além de simplesmente edificar alguém, sinto que se minha música ecoa o que está na Escritura e o que Deus disse, então considero boa.”
O que não atende a esse critério fica guardado.
“Chamo isso de poluição”, ri. “Já fiz muita poluição. Muita mesmo. E essas músicas nunca verão a luz do dia.”
Quando a música é liberada, Sondae espera que ela carregue o espírito das Escrituras, mesmo que as palavras não sejam explícitas.
“Sabe como a Bíblia diz que a fé vem pelo ouvir?”, questiona. “Gostaria que, caso alguém não tenha lido a Bíblia naquela manhã, por algum motivo, pudesse ouvir a mensagem por meio da minha música.”
Para ele, a Escritura cria uma sensação de quietude que quer reproduzir sonoramente.
“Sempre que leio a Bíblia e tenho um vislumbre do caráter de Deus, isso me leva a um lugar onde posso simplesmente me acalmar”, conta. “A vida desacelera. Tudo fica bem. É isso que quero que as pessoas sintam ao ouvirem minha música.”
BOY: um álbum sobre crescimento e dependência
Essa sensibilidade molda GAROTOseu álbum mais pessoal até hoje. O trabalho chega enquanto Sondae se prepara para o casamento e reflete sobre a vida adulta, masculinidade e dependência de Deus.
“Sinto que estou me expondo como sempre quis”, revela. “É sobre tornar-se homem e permanecer criança no coração, permanecer dependente de Deus.”
O título nasceu de um período de frustração.
“Passei um tempo tentando fazer as coisas com minha própria força”, lembra. “Tentando entender tudo sozinho. E não levava a lugar nenhum.”
Até que a resposta ficou clara.
“Então falei: ‘Deus, eu quero ser como um menino. Quero ser como uma criança. Não importa o que aconteça, dependo de Ti.’”
Essa dependência é influenciada pela história do seu pai, que permeia o álbum de forma silenciosa. Após perder o próprio pai aos 15 anos, o pai de Sondae assumiu responsabilidades cedo, sustentando os irmãos e reconstruindo a vida.
“Não acho que meu pai teve a chance de experimentar o que é tornar-se homem gradualmente”, reflete Sondae.
Somente anos depois seu pai reconheceu o que o sustentou.
“Ele voltou para mim e me ensinou uma nova lição”, conta. “Não importa o quanto você se torne homem, para entrar no reino dos céus, é preciso permanecer menino no coração.”
Essa tensão dá ao álbum sua gravidade emocional. GAROTO não busca grandes declarações, mas permanece na vulnerabilidade. Faixas como “Yours” já geraram reações intensas.
“É uma música que diz: ‘Senhor, fala comigo, desta vez vou ouvir. Que Tua voz tome conta de mim’”, explica. “Acho que ‘Yours’ é o foco do álbum, com certeza.”
Outra canção de destaque, “Flowers”, é ainda mais pessoal — uma música escrita para sua noiva que ela ainda não ouviu.
“É uma surpresa para minha noiva”, revela. “Ela sabe que tem uma música para ela, só que ainda não ouviu.”
Visão sobre a indústria e futuro
Com o crescimento do público, Sondae mantém cautela diante das pressões da visibilidade. Ele fala abertamente sobre as dificuldades com comparações e a fixação da indústria da música cristã por números.
“Existe uma confusão na nossa cultura que mistura unção com popularidade”, afirma. “Está tudo tão alto agora que eu nem sei mais o que é legítimo.”
Sua resposta é voltar ao básico.
“Quando o assunto é algo fundamental, tento ser fiel a Jesus, custe o que custar”, explica. “Sinto que essa é a melhor saída para essa loucura.”
Em vez de encarar a nova geração de artistas cristãos como concorrência, Sondae vê um chamado coletivo.
“A colheita é maior do que nós”, assegura. “Não importa pelo que você esteja passando, Deus criou um artista nesta geração que vai falar diretamente a isso.”
GAROTO não anuncia uma chegada definitiva, mas documenta uma formação. É um álbum sobre crescer sem endurecer, sobre uma fé que resiste à independência disfarçada de maturidade. Sondae não quer sobrecarregar o ouvinte. Ele o convida a desacelerar, ouvir atentamente e lembrar como a dependência soa quando é verdadeira. (Com informações de Emily Brown – Relevantmagazine)
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