Como crianças vivenciam o amor de Deus na prática
Estudo aponta que relações confiáveis ajudam crianças a perceber o amor divino na prática
Ensinar teologia para crianças pode ser importante, mas elas tendem a experimentar Deus e seu amor por meio de algo mais simples: a presença de adultos cuidados e confiáveis ao seu redor.
Essa é a conclusão de um estudo recente da World Vision, que entrevistou mais de 4.600 crianças em oito países, em parceria com pesquisadores das universidades Harvard, Duke e Claremont Graduate University. A pesquisa chamada Hope & Love Measure também contou com a colaboração de pastores e teólogos de diversas denominações em países como Bósnia, Gana, Malásia e Sul da Índia.
“Aprendemos que as crianças experimentam o amor de Deus principalmente por meio de suas famílias, através dos seus pais”, afirmou Edgar Sandoval Sr., CEO da World Vision, em entrevista à Christianity Today. “Isso não é surpreendente. Esse é o propósito de Deus para o mundo: nós nascemos em famílias.”
O estudo começou entrevistando 77 crianças apadrinhadas na Bolívia e El Salvador. Depois, expandiu-se para incluir 658 crianças em países como Albânia, Bolívia, Iraque, Lesoto, Senegal, Sri Lanka, Tailândia e Uganda, concluindo com testes interculturais adicionais.
A força da conexão humana na experiência do amor de Deus
Um dos principais aprendizados foi a importância da conexão humana. Segundo o relatório da World Vision, as respostas das crianças indicaram que a esperança mais poderosa que elas vivem não é abstrata, mas fundamentada em relacionamentos. As crianças compreendem o amor de Deus “por meio de experiências vividas de confiança, proteção, perdão, encorajamento e pertencimento”, explicou Jennifer Wortham, pesquisadora associada de Harvard, em entrevista.
Muitas crianças falaram positivamente sobre oração e práticas religiosas, vendo a confiança na orientação divina como fundamental para superar situações difíceis. Isso foi especialmente evidente em nações como Bolívia, Iraque, Lesoto e Senegal — países que enfrentam “sofrimentos inimagináveis por meio de conflitos, choques climáticos, deslocamento e fome”, conforme destacou Sandoval.
“Em todos os lugares que visito, vejo crianças suportando o peso dessas grandes forças que vão contra seu potencial”, acrescentou Sandoval. “Mas a ferramenta mais poderosa para combater a pobreza não é a ajuda material, e sim a identidade. Essas crianças foram criadas à imagem de um Deus que as ama.”
O desafio, porém, é que muitas crianças ainda enfrentam abuso, negligência ou abandono. Por isso, a resiliência nunca deve ser romantizadaalertou Wortham. “As crianças são notavelmente adaptáveis, mas adaptação não é o mesmo que prosperar.”
É por isso que comunidades mais amplas — professores, treinadores, líderes religiosos e igrejas — podem ser essenciais para crianças cujas primeiras experiências de amor foram fragmentadas, ausentes ou traídas, explicou Wortham. Nem toda criança tem o benefício de pais, avós ou irmãos que mereçam sua confiança.
Uma criança do Lesoto compartilhou com os pesquisadores: “Eu não tive sapatos escolares por muito tempo e isso me fazia sentir desconfortável na escola. Minha diretora prometeu comprar sapatos para mim, mas até hoje não comprou. Isso me afetou negativamente porque não tenho felicidade na escola. Isso me ensinou que a vida não é fácil.”
Em vez de separar a formação espiritual da criança dessas relações físicas, o estudo da World Vision avaliou os dados de forma holística, sugerindo que a espiritualidade infantil não pode ser isolada de outros aspectos da pessoa.
Fé concreta e relacional na infância
Kate Lawson-Hedger, autora do livro Orando com crianças (Orando com Crianças), comentou em entrevista que já ouviu pessoas dizerem que o ministério com crianças é “apenas algo para atrair os pais à igreja” e que a fé infantil é “superficial e pouco real”.
“No Ocidente, intelectualizamos demais a fé. ‘Você acredita neste conjunto de credos?’ Mas as pessoas na Bíblia experimentam Jesus. É confiança. É relacional. É incorporado”, explicou.
À medida que as crianças se tornam jovens adultos, podem visualizar Deus de forma mais simbólica — uma pomba que representa paz, uma cruz que simboliza sacrifício, um olho no céu para a presença onisciente. Porém, na infância, elas interpretam as coisas literalmente e estão muito ligadas a experiências materiais.
Assim, se os cuidadores oferecem conforto e orientação, as crianças já têm um modelo para um relacionamento amoroso com Deus. Lawson-Hedger lembrou de uma atividade em uma igreja infantil em que as crianças foram convidadas a desenhar Deus, e um menino fez um desenho de uma pessoa que era “metade mãe e metade pai”.
Outra criança, de Uganda, contou que nunca teve um colchão até que o avô comprou um de surpresa no início do ano escolar. “Eu percebi”, relatou, “que Deus cuida de nós mesmo nos momentos de necessidade e designa pessoas para ajudar.”
Crianças também são mais propensas a experimentar Deus por meio dos adultos porque vivem no presente, explicou Lawson-Hedger. Os adultos têm agendas cheias e planos a longo prazo, enquanto as crianças ainda não desenvolveram totalmente o lobo frontal do cérebro. Elas precisam de cuidado, atenção e orientação. Isso é especialmente importante para crianças com deficiências intelectuais, que são igualmente buscadas por Deus e merecem experimentar seu amor, destacou Sandoval, enfatizando a importância da família ao seu lado.
Chris Ammen, autor Criando Discípulos em Casa (Criando Discípulos em Casa) e fundador da Kaleidoscope, que publica livros bíblicos para crianças em idade escolar, foi pastor infantil por 15 anos. Ele frequentemente encontrava pais muito exigentes que buscavam recursos práticos e específicos para discipular suas famílias.
“Ainda não vi uma criança de 1 ou 2 anos sentar para ler a Bíblia”, disse Ammen em entrevista. “Deus salva as crianças por meio da Palavra e do Espírito, não pela escolha do livro certo.” Por isso, ele incentiva os pais a garantir que seus filhos se sintam vistos e seguros. “À medida que crescem, espera-se que digam: ‘Ah, Deus me trata muito parecido com as pessoas que Ele colocou na minha vida.’”
Essa também é a posição do Center for Faith and Children (CFC), que critica a cultura americana pela “idolatria da produtividade” — e a igreja por seguir essa tendência.
Muitas vezes, dizem os especialistas do CFC, cristãos bem-intencionados apostam em programas elaborados ou em “atividades espirituais mecânicas” — ou delegam todo o discipulado para a escola dominical — em vez de priorizar a formação diária, lenta e constante em casa. Devocionais e ensinamentos diretos têm seu valor, mas não substituem rotinas regulares, como um pai orando com a filha, uma mãe tendo conversas sinceras com o filho ou uma família preparando refeições para a comunidade da igreja.
“Grande parte da retórica sobre desconstrução é que Deus não é seguro”, disse Ammen. “Só posso acreditar que essa mensagem começou muito cedo na vida de muitas pessoas.”
Jennifer Wortham, que também é coordenadora do programa Harvard Initiative on Faith and Child Flourishing, incentiva os pais a modelar a presença constante e incondicional de Deus, sem focar principalmente em medir conquistas ou comportamentos.
“As crianças prestam muito mais atenção ao que os adultos fazem do que ao que dizem”, explicou. Quando os pais disciplinam com afeto e compromisso, buscam perdão para seus próprios erros, servem aos necessitados ou enfrentam momentos difíceis com esperança em vez de desespero, eles refletem para seus filhos o coração do amor de Deus.
Em resumo, o estudo da World Vision reforça que o amor de Deus é sentido pelas crianças através de relações humanas confiáveis e afetivas, especialmente dentro da família e da comunidade. É nesse ambiente que a fé se enraíza e floresce, mostrando que o cuidado cotidiano é o caminho mais eficaz para que as crianças conheçam e experimentem o amor divino. (Com informações de Cody Benjamin – Christianitytoday)
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